Quanto mais o tempo passa, menos eu falo e mais eu penso. Tenho preguiça de conviver, a multidão me irrita. Pessoas acham super bacana viverem espremidas: quanto mais "junto e misturado" melhor. Odiar fumaça, pisada no seu pé, surdez precoce virou caretice. Então eu sou careta. Desculpa à todos os que ainda convivem, mas só vou sorrir quando eu desejar, só vou lhe dirigir à palavra, idem.
Eu vou desvendar, esse é o mais belo que posso fazer no momento. Se eu já soubesse de tudo, o que eu iria discutir? Odeio certezas, ou melhor, pseudo-certezas. Nada é certo, nem o que eu escrevo..Paro por aqui!
sábado, 29 de agosto de 2009
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
Pessoas
Existem pessoas e pessoas.
Existem aquelas que seguem modelos, por ser mais cômodo.
E há aquelas que questionam esses modelos.
Assim, existem as que julgam tanto uma quanto outra; e também há aquelas que se julgam acima de todas as outras.
E têm aquelas que vivem.
Existem aquelas que seguem modelos, por ser mais cômodo.
E há aquelas que questionam esses modelos.
Assim, existem as que julgam tanto uma quanto outra; e também há aquelas que se julgam acima de todas as outras.
E têm aquelas que vivem.
Mesmice
É tanta mesmice. Eu olho ao redor e tudo que vejo são sempre pessoas preconceituosas. Não, não sou um ser humano retardado e nem dedico minha vida em defender outros seres. Estou falando de pessoas medíocres que tanto tiram conclusões precipitadas.
Porquê alguém nunca te dirigiu à palavra, não quer dizer que esse alguém seja tímido, autista ou retardado. Quer dizer que ele não foi com sua cara. Ou que simplesmente está com a mente ocupada demais para se preocupar com sua presença. Ou porquê alguém não te disse Bom dia, não quer dizer que ela seja mau-educada ou metidinha. Talvez ela esteja revoltada com a sociedade, ou com problemas familiares. Ou tantas outras opções, mas isso não é do seu aval. Se preocupe com quem te falar Bom dia, e não com quem não falar. Porque com certeza quem falou, se preocupa com você. E isso não quer dizer que ela dependa de você, então não deixe que grandes mentes passem despercebidas pelo seu caminho.
E também não é porque estou falando isso que estou revoltada. Ou pode ser que seja; não sei dizer agora se estou de mal humor, ou apenas cansada. Eu não sei diferenciar muitas coisas que aparentam ser parecidas, mas nem por isso escolho por uma. A vida é um grande mistério, mas também não sei se estou afim de desvendá-la. Se eu viver eu consequentemente vou estar descobrindo-a. Ou não, não sei. O que sabemos?
A maioria das vezes as pessoas acham que o quê um dia um homem que não tinha nada para fazer determinou, é válido. Digo, o que é o tempo? O que é espaço? Me defina vermelho. Pois é, são coisas simples que pensamos saber, mas o que sabemos é apenas uma determinação dos homens. E quem são os homens? A espécie mais superior do Universo? O que sabemos do Universo para poder afirmar isso?
Nada. Meus caros, nós não sabemos nada de nada.
Escrito em 28 de agosto de 2009; reflexão.
Porquê alguém nunca te dirigiu à palavra, não quer dizer que esse alguém seja tímido, autista ou retardado. Quer dizer que ele não foi com sua cara. Ou que simplesmente está com a mente ocupada demais para se preocupar com sua presença. Ou porquê alguém não te disse Bom dia, não quer dizer que ela seja mau-educada ou metidinha. Talvez ela esteja revoltada com a sociedade, ou com problemas familiares. Ou tantas outras opções, mas isso não é do seu aval. Se preocupe com quem te falar Bom dia, e não com quem não falar. Porque com certeza quem falou, se preocupa com você. E isso não quer dizer que ela dependa de você, então não deixe que grandes mentes passem despercebidas pelo seu caminho.
E também não é porque estou falando isso que estou revoltada. Ou pode ser que seja; não sei dizer agora se estou de mal humor, ou apenas cansada. Eu não sei diferenciar muitas coisas que aparentam ser parecidas, mas nem por isso escolho por uma. A vida é um grande mistério, mas também não sei se estou afim de desvendá-la. Se eu viver eu consequentemente vou estar descobrindo-a. Ou não, não sei. O que sabemos?
A maioria das vezes as pessoas acham que o quê um dia um homem que não tinha nada para fazer determinou, é válido. Digo, o que é o tempo? O que é espaço? Me defina vermelho. Pois é, são coisas simples que pensamos saber, mas o que sabemos é apenas uma determinação dos homens. E quem são os homens? A espécie mais superior do Universo? O que sabemos do Universo para poder afirmar isso?
Nada. Meus caros, nós não sabemos nada de nada.
Escrito em 28 de agosto de 2009; reflexão.
Lembranças de meu eterno avô
Sempre tive muito carinho por ele. Lembro-me de quando meu pai me avisou que ele estava com câncer e teria que fazer tratamento. Era 2006. Foi inesperado. Como meu avô poderia estar com câncer? Ele não poderia morrer, era meu avô. Aquele que sempre brincou comigo, nunca me negou nada e me contava histórias dele, da família, até dos gatinhos, seus animais de estimação.
Eu sempre acreditei que ele iria se curar, que não era seu momento de partir. Cada mês que passava, ele piorava, mais dor ele sentia, mais remédio ele tomava, e mais esperança de que ele não morreria, crescia dentro de mim.
Lágrimas escorreram dos meus olhos numa cena inesquecível. Meu pai trazendo meu avô no colo, para colocar na ambulância. Meu avô já estava pele e osso, tão magro, tão frágil e tão dependente.
Nunca esquecerei dos dias em que ele estava em repouso, e eu ficava sentada ao seu lado, conversando, distraindo-o; só nós dois e Deus, que nunca me fez desacreditar que o tumor sumiria de meu avô.
Mas a doença foi se agravando cada vez mais e na primeira semana de 2007, ele foi internado.
Assumo, que minha esperança, às vezes, me abandonava, como se até ela fosse incapaz de acreditar na cura.
Não podia, eu não queria. Mas no dia dez de janeiro de 2007, às vinte horas, recebi a notícia de que minha esperança tinha realmente me abandonado. Meu avô partiu, me deixando na saudade, tristeza, desconsolo. A partir daquele momento eu só poderia tê-lo em coração e em memória.
E foi abraçada com meu pai, chorando como jamais tive motivo para chorar, que eu vi fecharem o caixão. E nunca mais pude ver o rosto do homem que tanto me orgulhou, que eu admirava e amava.
Amo. Mesmo ele não estando mais aqui.
Emiliano Ernandes e tudo que ele viveu, que eu presenciei, ficará guardado para sempre na minha memória.
Porque “o amor é como o vento, não posso ver, mas posso senti-lo”
Escrito em maio de 2007; história real.
Eu sempre acreditei que ele iria se curar, que não era seu momento de partir. Cada mês que passava, ele piorava, mais dor ele sentia, mais remédio ele tomava, e mais esperança de que ele não morreria, crescia dentro de mim.
Lágrimas escorreram dos meus olhos numa cena inesquecível. Meu pai trazendo meu avô no colo, para colocar na ambulância. Meu avô já estava pele e osso, tão magro, tão frágil e tão dependente.
Nunca esquecerei dos dias em que ele estava em repouso, e eu ficava sentada ao seu lado, conversando, distraindo-o; só nós dois e Deus, que nunca me fez desacreditar que o tumor sumiria de meu avô.
Mas a doença foi se agravando cada vez mais e na primeira semana de 2007, ele foi internado.
Assumo, que minha esperança, às vezes, me abandonava, como se até ela fosse incapaz de acreditar na cura.
Não podia, eu não queria. Mas no dia dez de janeiro de 2007, às vinte horas, recebi a notícia de que minha esperança tinha realmente me abandonado. Meu avô partiu, me deixando na saudade, tristeza, desconsolo. A partir daquele momento eu só poderia tê-lo em coração e em memória.
E foi abraçada com meu pai, chorando como jamais tive motivo para chorar, que eu vi fecharem o caixão. E nunca mais pude ver o rosto do homem que tanto me orgulhou, que eu admirava e amava.
Amo. Mesmo ele não estando mais aqui.
Emiliano Ernandes e tudo que ele viveu, que eu presenciei, ficará guardado para sempre na minha memória.
Porque “o amor é como o vento, não posso ver, mas posso senti-lo”
Escrito em maio de 2007; história real.
O mundo das crianças
Fazia frio e ventava muito. A Avenida Correia estava agitada. Não de felicitações, muito menos de pessoas alegres. Era agitada no sentido de tumulto. Tinha muitos carros, som de buzina e gritos das pessoas. Acenavam à Deus, levando à Ele como oferta, poluição e xingamentos. Não xingavam Deus; porém era a única forma de palavras audíveis naquele quarteirão. O vento vinha cada vez mais forte, mostrando princípios de um furacão. As pessoas desciam do carro tentando abrir passagem, mas só viam fileiras e mais fileiras de carros. O congestionamento estava insuportável. Bem, pelo menos para a maioria que não sabe olhar pra dentro de si, e para os outros, quando se vê em uma situação incômoda.
Guilherme estava bem no meio do congestionamento. Era assim que se sentia, pelo menos. Olhando pra frente ou pra trás não via final nem começo. Ele tinha treze anos e era de família classe alta. Tinha luxo, mas não tinha amor. Os pais trabalhavam o dia inteiro; era criado por babás e a partir de certa idade passava o dia sozinho em casa. Apenas ele e sua bombinha respiratória. Tinha asma, síndrome do pânico e claustrofobia. Medo de escuro, de altura, de monstros. Solidão. Sempre foi uma criança autista. Porém era bastante inteligente, só precisava desenvolver alguns lados, como autonomia, liberdade, coragem, crítica. E outros mais. Voltando ao momento, ele estava no banco de trás. Sozinho. O pai e um amigo do mesmo, estavam do lado de fora, tentando contatos ou sabe-se lá o quê.
Ele tremia de frio e desespero. Tentou sair do carro, as portas de trás estavam trancadas. Seu pânico aumentou, junto com a os batimentos cardíacos. Sua vista estava embaçada e não conseguia gritar por ajuda. Sua bombinha estava no porta-luvas. Não iria alcançá-la, mal conseguia se mexer ou respirar.
Do outro lado da pista, onde os carros tinham sentido de destino contrário ao que Guilherme estava, tinha uma garotinha de nove anos. O nome dela era Bianca. Ele não sabia disso. Ela também não sabia qual era o problema dele. Mas conseguiu ver que sua mente não estava tranqüila.
Fazia alguns minutos que ela já o observava. Sem nenhuma palavra, saiu do carro do padrinho em que estava, atravessou as pistas por meio do trânsito parado e entrou no carro de Guilherme, no banco da frente do passageiro, e se virou pra trás.
_ Do que você precisa?
Sua voz era suave. Seu rosto fino, meigo e seguro. Talvez seja isso que fez Guilherme parar de buscar ar e chiar o peito. De forma impressionante, ele respirou normalmente. Ou talvez não respirou, não precisou, não percebeu. O ar fluía, parecendo que vinha da pequena menina.
Eles se encararam por um breve momento, o que foi suficiente.
_ Me fale no que eu posso te ajudar.
Ele não conseguia responder. Quem era aquela garotinha que se introduziu na sua vida sem pedir licença? Ela era de verdade ou era uma fantasia sua? Quem seria o ser humano que se preocuparia com o outro em pleno começo de um furacão? Como poderia, ela notar a sua presença? Ninguém nunca demonstrou preocupação em seus ataques de pânico. Chamavam de frescura e pronto, bastava.
_ Quem é você? - foi o máximo que ele conseguiu pronunciar. Ainda assim com tom baixo e inseguro. Poderiam achar que ele estava maluco falando com uma menina que ele não conhecia, ou que nem existia. Ele não confiava nem em si mesmo.
_ Bianca. Você está melhor? Ainda está pálido. É o tumulto que te deixa assim, não é?
_ É. Me sinto preso e sozinho.
_ Você nunca estará sozinho se estiver com você mesmo. Você é seu amigo?
_ Bem, não sei. O que eu faço pra saber?
_ Você já conversou consigo mesmo?
_ Não, nunca. As pessoas te chamam de louca?
_ Não. Mas eu não faço na frente dos adultos, eles não entendem.
_ Os adultos são chatos.
_ Eles são crianças mortas.
Guilherme se calou. Tentava entender o que Bianca estava dizendo. O que essa garotinha queria, afinal?
_ Qual é o seu nome?
_ Guilherme.
_ Você está pensando?
_ Estava.
_ Você estava conversando consigo mesmo.
_ Então eu sou meu amigo?
_ Depende. Só vai ser meu amigo se responder pra si mesmo as suas próprias perguntas. Entende?
_ Não.
Ela respirou fundo, abriu um grande sorriso e o chamou pra brincar.
_ Aqui? Brincar do quê?
_ Do que você quiser.
_ Não posso, meu pai vai brigar comigo.
_ Seu pai é uma criança morta?
Agora ele havia entendido o que ela dizia. Estava começando a se soltar, conversar e entender melhor os pensamentos da menina. E ele nem percebia a mudança.
_ É sim.
Ela pulou pro banco de trás e sentou-se ao seu lado. Ele a olhava assustado, não entendia o que estava acontecendo.
Ela pegou do bolso de sua calça, um chiclete. Aparentava ser de morango, mas cheirava mal. E além disso, estava amarrotado. Ela não ofereceu à ele, mas mastigava com prazer. Olhava pro lado, pela janela, vendo o alvoroço. Não fez mais nenhuma pergunta intrigante. Deixou que ele se acalmasse por si só.
Mas ele ainda não era tão bom nisso. Se sentiu sozinho, mesmo entre aquelas tantas pessoas. Se sentiu desprezado, esquecido. Mesmo a tendo ali ao seu lado, parecia que nada era suficiente, ele precisava de muito mais atenção.
Sua respiração falhou de novo, e agora muito mais. Sua visão escureceu, o carro parecia espremê-lo e vozes gritavam em seu ouvido.
_ Me .. Ajuda..respirar!
A menina sorria de forma serena.
_ O que eu devo fazer?
Mas seu tom de voz era mais preocupante.
_ Pega..no porta-luvas, meu.. Minha bombinha!
_ Não tem ninguém aqui pra cuidar de você, não? Cadê sua família? Cadê os adultos chatos?
Ela retrucava enquanto pulava os bancos novamente. Procurava com rapidez a bombinha. Parecia muito revoltada.
_ Aqui está!
Ela estendeu com rapidez. Ele puxou de sua mão, com brutalidade. Colocou o aparelho na boca. Seus olhos escorriam lágrimas e seu rosto estava vermelho. Sentia que ia desmaiar à qualquer momento. Fechou os olhos e puxou o ar. Umas cinco vezes. Mas pareceu ser mais. Estava um pouco melhor. Abriu os olhos e foi agradecer à sua mais nova amiga. Mas ela não estava mais lá.
Olhou pra fora e só viu o pai e o amigo voltando ao carro. Tentavam procurar contatos ou sabe-se lá o quê. As pessoas xingavam e gritavam. Tinha um princípio de furacão. Na Avenida Correia, Deus recebia poluição. Fazia frio e ventava muito.
Escrito em 12 de julho de 2009; conto.
Guilherme estava bem no meio do congestionamento. Era assim que se sentia, pelo menos. Olhando pra frente ou pra trás não via final nem começo. Ele tinha treze anos e era de família classe alta. Tinha luxo, mas não tinha amor. Os pais trabalhavam o dia inteiro; era criado por babás e a partir de certa idade passava o dia sozinho em casa. Apenas ele e sua bombinha respiratória. Tinha asma, síndrome do pânico e claustrofobia. Medo de escuro, de altura, de monstros. Solidão. Sempre foi uma criança autista. Porém era bastante inteligente, só precisava desenvolver alguns lados, como autonomia, liberdade, coragem, crítica. E outros mais. Voltando ao momento, ele estava no banco de trás. Sozinho. O pai e um amigo do mesmo, estavam do lado de fora, tentando contatos ou sabe-se lá o quê.
Ele tremia de frio e desespero. Tentou sair do carro, as portas de trás estavam trancadas. Seu pânico aumentou, junto com a os batimentos cardíacos. Sua vista estava embaçada e não conseguia gritar por ajuda. Sua bombinha estava no porta-luvas. Não iria alcançá-la, mal conseguia se mexer ou respirar.
Do outro lado da pista, onde os carros tinham sentido de destino contrário ao que Guilherme estava, tinha uma garotinha de nove anos. O nome dela era Bianca. Ele não sabia disso. Ela também não sabia qual era o problema dele. Mas conseguiu ver que sua mente não estava tranqüila.
Fazia alguns minutos que ela já o observava. Sem nenhuma palavra, saiu do carro do padrinho em que estava, atravessou as pistas por meio do trânsito parado e entrou no carro de Guilherme, no banco da frente do passageiro, e se virou pra trás.
_ Do que você precisa?
Sua voz era suave. Seu rosto fino, meigo e seguro. Talvez seja isso que fez Guilherme parar de buscar ar e chiar o peito. De forma impressionante, ele respirou normalmente. Ou talvez não respirou, não precisou, não percebeu. O ar fluía, parecendo que vinha da pequena menina.
Eles se encararam por um breve momento, o que foi suficiente.
_ Me fale no que eu posso te ajudar.
Ele não conseguia responder. Quem era aquela garotinha que se introduziu na sua vida sem pedir licença? Ela era de verdade ou era uma fantasia sua? Quem seria o ser humano que se preocuparia com o outro em pleno começo de um furacão? Como poderia, ela notar a sua presença? Ninguém nunca demonstrou preocupação em seus ataques de pânico. Chamavam de frescura e pronto, bastava.
_ Quem é você? - foi o máximo que ele conseguiu pronunciar. Ainda assim com tom baixo e inseguro. Poderiam achar que ele estava maluco falando com uma menina que ele não conhecia, ou que nem existia. Ele não confiava nem em si mesmo.
_ Bianca. Você está melhor? Ainda está pálido. É o tumulto que te deixa assim, não é?
_ É. Me sinto preso e sozinho.
_ Você nunca estará sozinho se estiver com você mesmo. Você é seu amigo?
_ Bem, não sei. O que eu faço pra saber?
_ Você já conversou consigo mesmo?
_ Não, nunca. As pessoas te chamam de louca?
_ Não. Mas eu não faço na frente dos adultos, eles não entendem.
_ Os adultos são chatos.
_ Eles são crianças mortas.
Guilherme se calou. Tentava entender o que Bianca estava dizendo. O que essa garotinha queria, afinal?
_ Qual é o seu nome?
_ Guilherme.
_ Você está pensando?
_ Estava.
_ Você estava conversando consigo mesmo.
_ Então eu sou meu amigo?
_ Depende. Só vai ser meu amigo se responder pra si mesmo as suas próprias perguntas. Entende?
_ Não.
Ela respirou fundo, abriu um grande sorriso e o chamou pra brincar.
_ Aqui? Brincar do quê?
_ Do que você quiser.
_ Não posso, meu pai vai brigar comigo.
_ Seu pai é uma criança morta?
Agora ele havia entendido o que ela dizia. Estava começando a se soltar, conversar e entender melhor os pensamentos da menina. E ele nem percebia a mudança.
_ É sim.
Ela pulou pro banco de trás e sentou-se ao seu lado. Ele a olhava assustado, não entendia o que estava acontecendo.
Ela pegou do bolso de sua calça, um chiclete. Aparentava ser de morango, mas cheirava mal. E além disso, estava amarrotado. Ela não ofereceu à ele, mas mastigava com prazer. Olhava pro lado, pela janela, vendo o alvoroço. Não fez mais nenhuma pergunta intrigante. Deixou que ele se acalmasse por si só.
Mas ele ainda não era tão bom nisso. Se sentiu sozinho, mesmo entre aquelas tantas pessoas. Se sentiu desprezado, esquecido. Mesmo a tendo ali ao seu lado, parecia que nada era suficiente, ele precisava de muito mais atenção.
Sua respiração falhou de novo, e agora muito mais. Sua visão escureceu, o carro parecia espremê-lo e vozes gritavam em seu ouvido.
_ Me .. Ajuda..respirar!
A menina sorria de forma serena.
_ O que eu devo fazer?
Mas seu tom de voz era mais preocupante.
_ Pega..no porta-luvas, meu.. Minha bombinha!
_ Não tem ninguém aqui pra cuidar de você, não? Cadê sua família? Cadê os adultos chatos?
Ela retrucava enquanto pulava os bancos novamente. Procurava com rapidez a bombinha. Parecia muito revoltada.
_ Aqui está!
Ela estendeu com rapidez. Ele puxou de sua mão, com brutalidade. Colocou o aparelho na boca. Seus olhos escorriam lágrimas e seu rosto estava vermelho. Sentia que ia desmaiar à qualquer momento. Fechou os olhos e puxou o ar. Umas cinco vezes. Mas pareceu ser mais. Estava um pouco melhor. Abriu os olhos e foi agradecer à sua mais nova amiga. Mas ela não estava mais lá.
Olhou pra fora e só viu o pai e o amigo voltando ao carro. Tentavam procurar contatos ou sabe-se lá o quê. As pessoas xingavam e gritavam. Tinha um princípio de furacão. Na Avenida Correia, Deus recebia poluição. Fazia frio e ventava muito.
Escrito em 12 de julho de 2009; conto.
Acaso
Já se passara quatro anos, mas ela ainda não esquecera a cena que presenciara naquele apartamento. Desde que ele entrou naquela sala, e o viu naquele ritual. Ainda fluíam em suas lembranças, a cena em que ele corria, corredor adentro, talvez numa tentativa de fuga. Ainda podia ver o cigarro semi-aceso, na mesinha central.
Hoje, qualquer desconhecido que passasse por ela, podia descobrir, a tristeza e a confusão em seus olhos.
Pele jambo, olhos grandes e escuros, cabelos ao vento num corte inconfundível, irradiava o mesmo tom. Personalidade misteriosa. Jeito intrigante. Mas ela apenas precisava pensar. E ali estava, sentada à beira-mar . O sino da igreja próxima, já anunciava vinte horas do dia, quando a Lua começara a iluminar a escuridão que só estava começando.
“Apenas o que eu vi, não podia ser irreal.” –pensava com a mente.
“Simplesmente não podia ser complicado.” –pensava com o coração.
_ Pai.. pai.. Papai. O que isso significa?
Ela precisava entender.
“Dessa noite não passa. Preciso de sua resposta.” Lembrava das palavras do pai, na noite anterior, quando o reencontrou pela primeira vez, desde que ela se fora há quatro anos.
“Dessa noite não passa.” E realmente não passaria. Ela lhe deu sua palavra, de que responderia o que o pai precisava saber. Já tinha seus vinte e sete anos. Não era mais uma garotinha, precisava de uma atitude em um ponto certeiro.
Será que tudo que fizera, agora se refletia no próprio pai?
Priscila desde os 19 anos entrara no mundo das drogas. Não no vício, isso nunca. Abominava essa idéia. Se drogar é descontar em si próprio toda raiva que o mundo inteiro lhe transmite - descrevia. É rebelar e sofrer, culpando-se por todos os problemas à sua volta. Como se a droga te desse um livre arbítrio, quando sozinho não consegue por si só.
Na verdade, era traficante. Esperta e dissimulada como ninguém, crescera tão rápido naquele mundo, que há anos, já era líder de todo um grupo do tráfico.
Entrara nessa vida, após a morte de sua mãe, uma mulher forte e decidida, que sempre lutara sozinha para sustentar a casa. Moravam Priscila, mãe, pai e seus dois irmãos pequenos. A situação sempre fora complicada, já que viviam apenas com o dinheiro do trabalho da mãe. Depois da morte, o pai acomodou-se ainda mais, só que dessa vez com a desculpa de uma depressão. Fora aí que Priscila começou a traficar.
Ela vivia nessa realidade, sabia o quão ruim era para os fracos viciados, como ela os denominava. Só não esperava que veria essa tragédia, dentro de sua própria família, com seu próprio pai.
Desde há quatro anos, quando entrou em casa, e viu seu pai em uma crise, se drogando, quase morrendo, se “matando” com substâncias, que indiretamente, ela mesma havia colocado ali. Ela traficava, bancava, governava. Sustentava o vício de seu próprio pai, e daí a sensação de culpa imperdoável. Com esperança de sustentar e reerguer a família, ela destruíra. E da mesma forma que destruíra, fugira. Assim como o pai fugiu, quando a viu entrando pela sala naquela noite. Fugira também, sumiu de todos, tentando se esconder. Em vão. De si mesma ela jamais poderia se esconder. E essa vergonha era apenas dela, isso ela tinha certeza. Assim como a certeza de que havia fracassado.
Já eram 23 horas e quarenta minutos quando seu celular tocou, acordando-a. Havia adormecido, deitada na areia da praia. Ah, como queria que aquilo tudo fosse um sonho!
Número desconhecido. Atendeu. A voz não era desconhecida.
_ Priscila? Eu prometi que não te ligaria, te deixaria pensar até que o dia amanhecesse, mas eu não agüento mais, minha filha. Por..
_ Não me chame de filha!
_ .. Tudo bem ... Mas.. Por favor.. Diga-me que irá me encontrar.. Por favor, me diga que vai me ouvir, minha..
_ Eu aceito falar com você!
_ Ah!! O jeito de sua mãe.. Sempre cortando a fala dos outros.
_ Você que demora muito pra se expressar, não tenho a vida toda. Ok, Praça da Bandeira, em meia hora, em algum banco da lateral esquerda.
Falou rápido e desligou.
Eram exatamente meia-noite e dez minutos, quando Priscila chegara à praça, extremamente pontual. Vira um pouco mais à frente um senhor, vestido com moletons.
Joaquim segurava o celular nas mãos, apreensivo, olhando para todos os cantos. Ficou imóvel quando viu Priscila se aproximar.
_ Diga logo o que quer. Não tenho muito tempo.
_ Filha, ah, minha filha..
Os olhos de Priscila começaram a se encher de lágrimas, e todo sentimento de culpa voltara. Respirou fundo, colocando para dentro tudo que estava sentindo. Jamais se mostraria fraca, ainda mais a ele. Jamais mostrara seus sentimentos à ninguém, não era agora que ia se desabar em lágrimas, como uma criancinha de cinco anos.
_ Minha filha, como você está linda.. Que saudade de você, me lembra demais sua mãe. Que saudade dela..
Até aí ela se mantinha calada.
_ E seus irmãos também sentem muito sua falta.
_ Eu já disse que não tenho todo meu tempo pra você, mas que droga!
Virou-se de costas, respirou fundo mais uma vez, voltou-se a ele.
_ Não vim aqui pra saber do que sente, dane-se você. Diga logo o que tem à dizer. Tenho muito o que fazer ainda.
_ Priscila! Por que me trata assim? Por quê? Eu sou seu pai, menina!
Ele havia aumentado seu tom de voz. Ela começara à rir.
_ Você acha mesmo que tem alguma moral sobre mim? Nunca me sustentou, nunca nem se quer perguntou sobre minha vida, nunca se interessou em saber em como eu estava. Agora eu entendo pra onde ia o dinheiro das contas de casa, que mamãe deixava contigo pra você pagar, não é? Tudo em drogas, Joaquim, tudo? Mamãe se matava pra pagar todas as contas, pra por comida dentro de casa, pra pagar estudo à mim e aos meninos. E você? Nada. Nada, nunca. E ainda torrava dinheiro da mamãe em drogas! Drogas! Ora mais, Joaquim, e agora quer me lembrar de que é meu pai?
Ele a olhava pasmo.
_ Tudo bem, então serei direto.
_ Assim espero.
_ Preciso de dinheiro.
_ O quê? Me chamou aqui pra pedir dinheiro?
_ Eu preciso, Priscila, eu preciso.
_ Pra quê? Pra torrar em mais drogas? Ora mais, vá trabalhar, Joaquim! Coisa, aliás, que nunca fez na vida! Vou-me embora.
_ Espere! Espere Priscila, por favor. Eu preciso de grana, urgente, não tenho mais onde conseguir. Acha que procuraria você se não fosse realmente importante?
_ Ok. Precisa de dinheiro pra quê?
_ Seus irmãos. Eles vão passar fome essa semana, acabou tudo que tinha em casa, acabou o dinheiro da poupança deles...
_ Mexeu na popança que mamãe deixou pros meninos?
_ Mas é claro Priscila! Como eu ia sustentar aqueles moleques?
_ Achei que fosse um pouquinho melhor.
_ O quê?
_ Você. Achei que pelo menos saberia cuidar bem dos pequenos.
_ Não tenho dinheiro Priscila, você parece que não entende isso!
_ Me dê a guarda deles.
_ Te dar os moleques? Nem pensar.
_ E por que não? Porque sem eles não teria mais motivos pra vir me pedir dinheiro, não é? Ora, mais que traste você é! Cada vez pior!
_ O dinheiro da minha aposentadoria eu estou usando pra pagar os caras. Tem muito dinheiro de drogas que estou devendo, e sabe como é com esses caras, ou paga ou morre!
Os caras.. Os caras que trabalhavam pra ela. Ela era a chefe, ela era a líder. Ela mandava os caras cobrarem e conseguirem a grana dos fracos viciados à qualquer custo. Agora seus irmãos passavam fome, pois o pai não tinha dinheiro pra cuidar-lhes, pois tinha que pagar os caras. Ele tinha que pagar ela mesma! Ela tava fazendo os irmãos passarem fome, diretamente ou indiretamente. Se sentia totalmente culpada. Como tinha deixado as coisas chegarem à esse ponto? Só começou com isso pra ajudar a família, e a
destruiu completamente. Será que um dia ela mesma se perdoaria?
_ Priscila! Priscila, ficou surda agora, menina? Estou falando com você. Vai logo me arranjar a grana ou vai deixar os moleques passando fome?
_ Onde estão os meninos?
_ Em casa.
_ Eu vou buscar-los.
_ Não! Não,não vai.
Priscila saiu andando em direção a seu carro, parado à alguns metros dali.
_ Onde pensa que vai, menina?
_ Entre logo e cale essa maldita boca, mas que droga!
Não agüentava mais. Começou a chorar. Se sentia mais fraca que todos os fracos viciados que ela tanto abominava.
Esperou o pai entrar ao seu lado, e ligou o carro. Partiu, em direção à sua antiga casa. A casa de sua mãe. Como sentia falta dela, seu único porto-seguro, que há oito anos não tinha mais ao seu lado. Sentia um vazio tão grande dentro de si. Seria difícil voltar àquela casa, depois de quatro anos sem dar nem sinal de vida ao pai e aos irmãos. Mas ela o faria, em memória à sua mãe; uma mulher forte. Ela também seria forte.
Respirara fundo mais uma vez, engolindo o choro e qualquer resquício de desespero e tristeza.
Chegara. Estacionara na frente de sua antiga casa. Desceram, ela e seu pai.
Joaquim abrira a porta de casa, e sentou-se no sofá, esperando a decisão de Priscila. Parecia cada vez mais apreensivo, nervoso, com medo. Fraco.
A casa estava um completo lixo. Coisas jogadas, cigarros e garrafas de bebidas espalhados por todo o canto. Roupas dos meninos amassadas, jogadas no sofá. Amontoados de coisas sujas ao lado. Priscila olhava aquilo, incrédula.
_ É nesse beco que os meus irmãos moram?
_ É nesse beco que você abandonou sua família. Eu e os moleques.
_ Você que se dane! Eu quero os meninos, agora, eles vêm comigo!
_ Não, nem pensar, eu não dou os meninos assim de graça pra você não, Priscila!
_ De graça? E quer o quê? Negociar seus próprios filhos? Quer trocar eles por droga também?
_ Cala essa boca menina, os moleques estão dormindo aí do lado. Vai que escutam.
_ Como se eles não soubessem que você é um drogado perdedor!
A porta do quarto ao lado abrira. Bernardo e Pedro saíram correndo ao encontro da irmã, abraçando-a felizes.
_ Pri, você voltou!
Bernardo tinha nove anos. Pedro, oito. Gritavam felizes e festejavam a volta da irmã. Ela era praticamente uma mãe pros meninos. Maria Laura, mãe deles, morrera de câncer quando Pedro tinha apenas meses de vida e Bernardo, tinha acabado de fazer um ano; não tinham referência nenhuma da mãe verdadeira. Sempre fora Priscila que cuidara dos pequenos.
_ Papai, você achou nossa irmã pra gente.
Pedro abraçava o pai, agradecendo-o. Joaquim abraçava o menino, sorrindo maldoso por trás, para Priscila, como quem diria que ele não era tão inútil e indesejado como ela dizia. Sentia isso como um troféu pra tacar na cara da filha.
Já Bernardo era um pouco mais esperto. Percebia melhor como era o pai. Esse sim, era o que mais sofreu com a falta da mãe, e principalmente, de Priscila.
Bernardo se mantivera o tempo todo ao lado da irmã, e agora questionava todo o tempo se ela ficaria com eles.
_ Sim, Bê, eu vou ficar com vocês!
Joaquim olhara surpreso, mas ao mesmo tempo com medo, muito medo do que Priscila faria daqui pra frente.
_ Mas agora vão vocês dois para o quarto e voltem dormir, tudo bem? Amanhã a gente conversa.
_ Mas a gente quer matar a saudade, maninha.
_ Amanhã, amanhã. Agora eu preciso conversar com o papai, ok? Voltem dormir, vão!
Os meninos voltaram, amuados, para o quarto. Fecharam a porta, e Priscila voltou a encarar Joaquim. Estava com olhar decisivo. E ele, cada vez mais acanhado e submisso.
_ Pois bem, primeiramente, eu ficarei com os meninos.
_ Não vai...
_ Quieto! Eu ficarei com os meninos, querendo você ou não. E também, não se preocupe em pagar os caras, das drogas.
_ Como não?
_ Já ouviu falar na Chefe Pirla?
_ Pirla? Mas é claro, os caras falam dela o tempo todo. É a líder do tráfico do sudeste inteiro. Mas espera. Como conhece Pirla?
Joaquim estava imóvel. Pálido, se calara. Passava mil coisas em sua cabeça, mas nada que fizesse sentido.
_ Quando mamãe morreu, eu precisava conseguir dinheiro pra sustentar a casa.
_ Conhece Pirla? Pediu dinheiro à ela?
_ Eu sou a Chefe Pirla.
Joaquim caíra sentado de volta no sofá. Colocara a mão no peito. Começara tossir, o ar faltara. A vista embaçou e já não via mais nada. Não sentia mais, não estava mais ali.
Já eram cinco da manhã quando os meninos acordaram novamente por causa de barulho. Era a ambulância, que chegara por chamado de Priscila para levar o corpo de Joaquim.
Escrito em 23 de maio de 2009; conto.
Hoje, qualquer desconhecido que passasse por ela, podia descobrir, a tristeza e a confusão em seus olhos.
Pele jambo, olhos grandes e escuros, cabelos ao vento num corte inconfundível, irradiava o mesmo tom. Personalidade misteriosa. Jeito intrigante. Mas ela apenas precisava pensar. E ali estava, sentada à beira-mar . O sino da igreja próxima, já anunciava vinte horas do dia, quando a Lua começara a iluminar a escuridão que só estava começando.
“Apenas o que eu vi, não podia ser irreal.” –pensava com a mente.
“Simplesmente não podia ser complicado.” –pensava com o coração.
_ Pai.. pai.. Papai. O que isso significa?
Ela precisava entender.
“Dessa noite não passa. Preciso de sua resposta.” Lembrava das palavras do pai, na noite anterior, quando o reencontrou pela primeira vez, desde que ela se fora há quatro anos.
“Dessa noite não passa.” E realmente não passaria. Ela lhe deu sua palavra, de que responderia o que o pai precisava saber. Já tinha seus vinte e sete anos. Não era mais uma garotinha, precisava de uma atitude em um ponto certeiro.
Será que tudo que fizera, agora se refletia no próprio pai?
Priscila desde os 19 anos entrara no mundo das drogas. Não no vício, isso nunca. Abominava essa idéia. Se drogar é descontar em si próprio toda raiva que o mundo inteiro lhe transmite - descrevia. É rebelar e sofrer, culpando-se por todos os problemas à sua volta. Como se a droga te desse um livre arbítrio, quando sozinho não consegue por si só.
Na verdade, era traficante. Esperta e dissimulada como ninguém, crescera tão rápido naquele mundo, que há anos, já era líder de todo um grupo do tráfico.
Entrara nessa vida, após a morte de sua mãe, uma mulher forte e decidida, que sempre lutara sozinha para sustentar a casa. Moravam Priscila, mãe, pai e seus dois irmãos pequenos. A situação sempre fora complicada, já que viviam apenas com o dinheiro do trabalho da mãe. Depois da morte, o pai acomodou-se ainda mais, só que dessa vez com a desculpa de uma depressão. Fora aí que Priscila começou a traficar.
Ela vivia nessa realidade, sabia o quão ruim era para os fracos viciados, como ela os denominava. Só não esperava que veria essa tragédia, dentro de sua própria família, com seu próprio pai.
Desde há quatro anos, quando entrou em casa, e viu seu pai em uma crise, se drogando, quase morrendo, se “matando” com substâncias, que indiretamente, ela mesma havia colocado ali. Ela traficava, bancava, governava. Sustentava o vício de seu próprio pai, e daí a sensação de culpa imperdoável. Com esperança de sustentar e reerguer a família, ela destruíra. E da mesma forma que destruíra, fugira. Assim como o pai fugiu, quando a viu entrando pela sala naquela noite. Fugira também, sumiu de todos, tentando se esconder. Em vão. De si mesma ela jamais poderia se esconder. E essa vergonha era apenas dela, isso ela tinha certeza. Assim como a certeza de que havia fracassado.
Já eram 23 horas e quarenta minutos quando seu celular tocou, acordando-a. Havia adormecido, deitada na areia da praia. Ah, como queria que aquilo tudo fosse um sonho!
Número desconhecido. Atendeu. A voz não era desconhecida.
_ Priscila? Eu prometi que não te ligaria, te deixaria pensar até que o dia amanhecesse, mas eu não agüento mais, minha filha. Por..
_ Não me chame de filha!
_ .. Tudo bem ... Mas.. Por favor.. Diga-me que irá me encontrar.. Por favor, me diga que vai me ouvir, minha..
_ Eu aceito falar com você!
_ Ah!! O jeito de sua mãe.. Sempre cortando a fala dos outros.
_ Você que demora muito pra se expressar, não tenho a vida toda. Ok, Praça da Bandeira, em meia hora, em algum banco da lateral esquerda.
Falou rápido e desligou.
Eram exatamente meia-noite e dez minutos, quando Priscila chegara à praça, extremamente pontual. Vira um pouco mais à frente um senhor, vestido com moletons.
Joaquim segurava o celular nas mãos, apreensivo, olhando para todos os cantos. Ficou imóvel quando viu Priscila se aproximar.
_ Diga logo o que quer. Não tenho muito tempo.
_ Filha, ah, minha filha..
Os olhos de Priscila começaram a se encher de lágrimas, e todo sentimento de culpa voltara. Respirou fundo, colocando para dentro tudo que estava sentindo. Jamais se mostraria fraca, ainda mais a ele. Jamais mostrara seus sentimentos à ninguém, não era agora que ia se desabar em lágrimas, como uma criancinha de cinco anos.
_ Minha filha, como você está linda.. Que saudade de você, me lembra demais sua mãe. Que saudade dela..
Até aí ela se mantinha calada.
_ E seus irmãos também sentem muito sua falta.
_ Eu já disse que não tenho todo meu tempo pra você, mas que droga!
Virou-se de costas, respirou fundo mais uma vez, voltou-se a ele.
_ Não vim aqui pra saber do que sente, dane-se você. Diga logo o que tem à dizer. Tenho muito o que fazer ainda.
_ Priscila! Por que me trata assim? Por quê? Eu sou seu pai, menina!
Ele havia aumentado seu tom de voz. Ela começara à rir.
_ Você acha mesmo que tem alguma moral sobre mim? Nunca me sustentou, nunca nem se quer perguntou sobre minha vida, nunca se interessou em saber em como eu estava. Agora eu entendo pra onde ia o dinheiro das contas de casa, que mamãe deixava contigo pra você pagar, não é? Tudo em drogas, Joaquim, tudo? Mamãe se matava pra pagar todas as contas, pra por comida dentro de casa, pra pagar estudo à mim e aos meninos. E você? Nada. Nada, nunca. E ainda torrava dinheiro da mamãe em drogas! Drogas! Ora mais, Joaquim, e agora quer me lembrar de que é meu pai?
Ele a olhava pasmo.
_ Tudo bem, então serei direto.
_ Assim espero.
_ Preciso de dinheiro.
_ O quê? Me chamou aqui pra pedir dinheiro?
_ Eu preciso, Priscila, eu preciso.
_ Pra quê? Pra torrar em mais drogas? Ora mais, vá trabalhar, Joaquim! Coisa, aliás, que nunca fez na vida! Vou-me embora.
_ Espere! Espere Priscila, por favor. Eu preciso de grana, urgente, não tenho mais onde conseguir. Acha que procuraria você se não fosse realmente importante?
_ Ok. Precisa de dinheiro pra quê?
_ Seus irmãos. Eles vão passar fome essa semana, acabou tudo que tinha em casa, acabou o dinheiro da poupança deles...
_ Mexeu na popança que mamãe deixou pros meninos?
_ Mas é claro Priscila! Como eu ia sustentar aqueles moleques?
_ Achei que fosse um pouquinho melhor.
_ O quê?
_ Você. Achei que pelo menos saberia cuidar bem dos pequenos.
_ Não tenho dinheiro Priscila, você parece que não entende isso!
_ Me dê a guarda deles.
_ Te dar os moleques? Nem pensar.
_ E por que não? Porque sem eles não teria mais motivos pra vir me pedir dinheiro, não é? Ora, mais que traste você é! Cada vez pior!
_ O dinheiro da minha aposentadoria eu estou usando pra pagar os caras. Tem muito dinheiro de drogas que estou devendo, e sabe como é com esses caras, ou paga ou morre!
Os caras.. Os caras que trabalhavam pra ela. Ela era a chefe, ela era a líder. Ela mandava os caras cobrarem e conseguirem a grana dos fracos viciados à qualquer custo. Agora seus irmãos passavam fome, pois o pai não tinha dinheiro pra cuidar-lhes, pois tinha que pagar os caras. Ele tinha que pagar ela mesma! Ela tava fazendo os irmãos passarem fome, diretamente ou indiretamente. Se sentia totalmente culpada. Como tinha deixado as coisas chegarem à esse ponto? Só começou com isso pra ajudar a família, e a
destruiu completamente. Será que um dia ela mesma se perdoaria?
_ Priscila! Priscila, ficou surda agora, menina? Estou falando com você. Vai logo me arranjar a grana ou vai deixar os moleques passando fome?
_ Onde estão os meninos?
_ Em casa.
_ Eu vou buscar-los.
_ Não! Não,não vai.
Priscila saiu andando em direção a seu carro, parado à alguns metros dali.
_ Onde pensa que vai, menina?
_ Entre logo e cale essa maldita boca, mas que droga!
Não agüentava mais. Começou a chorar. Se sentia mais fraca que todos os fracos viciados que ela tanto abominava.
Esperou o pai entrar ao seu lado, e ligou o carro. Partiu, em direção à sua antiga casa. A casa de sua mãe. Como sentia falta dela, seu único porto-seguro, que há oito anos não tinha mais ao seu lado. Sentia um vazio tão grande dentro de si. Seria difícil voltar àquela casa, depois de quatro anos sem dar nem sinal de vida ao pai e aos irmãos. Mas ela o faria, em memória à sua mãe; uma mulher forte. Ela também seria forte.
Respirara fundo mais uma vez, engolindo o choro e qualquer resquício de desespero e tristeza.
Chegara. Estacionara na frente de sua antiga casa. Desceram, ela e seu pai.
Joaquim abrira a porta de casa, e sentou-se no sofá, esperando a decisão de Priscila. Parecia cada vez mais apreensivo, nervoso, com medo. Fraco.
A casa estava um completo lixo. Coisas jogadas, cigarros e garrafas de bebidas espalhados por todo o canto. Roupas dos meninos amassadas, jogadas no sofá. Amontoados de coisas sujas ao lado. Priscila olhava aquilo, incrédula.
_ É nesse beco que os meus irmãos moram?
_ É nesse beco que você abandonou sua família. Eu e os moleques.
_ Você que se dane! Eu quero os meninos, agora, eles vêm comigo!
_ Não, nem pensar, eu não dou os meninos assim de graça pra você não, Priscila!
_ De graça? E quer o quê? Negociar seus próprios filhos? Quer trocar eles por droga também?
_ Cala essa boca menina, os moleques estão dormindo aí do lado. Vai que escutam.
_ Como se eles não soubessem que você é um drogado perdedor!
A porta do quarto ao lado abrira. Bernardo e Pedro saíram correndo ao encontro da irmã, abraçando-a felizes.
_ Pri, você voltou!
Bernardo tinha nove anos. Pedro, oito. Gritavam felizes e festejavam a volta da irmã. Ela era praticamente uma mãe pros meninos. Maria Laura, mãe deles, morrera de câncer quando Pedro tinha apenas meses de vida e Bernardo, tinha acabado de fazer um ano; não tinham referência nenhuma da mãe verdadeira. Sempre fora Priscila que cuidara dos pequenos.
_ Papai, você achou nossa irmã pra gente.
Pedro abraçava o pai, agradecendo-o. Joaquim abraçava o menino, sorrindo maldoso por trás, para Priscila, como quem diria que ele não era tão inútil e indesejado como ela dizia. Sentia isso como um troféu pra tacar na cara da filha.
Já Bernardo era um pouco mais esperto. Percebia melhor como era o pai. Esse sim, era o que mais sofreu com a falta da mãe, e principalmente, de Priscila.
Bernardo se mantivera o tempo todo ao lado da irmã, e agora questionava todo o tempo se ela ficaria com eles.
_ Sim, Bê, eu vou ficar com vocês!
Joaquim olhara surpreso, mas ao mesmo tempo com medo, muito medo do que Priscila faria daqui pra frente.
_ Mas agora vão vocês dois para o quarto e voltem dormir, tudo bem? Amanhã a gente conversa.
_ Mas a gente quer matar a saudade, maninha.
_ Amanhã, amanhã. Agora eu preciso conversar com o papai, ok? Voltem dormir, vão!
Os meninos voltaram, amuados, para o quarto. Fecharam a porta, e Priscila voltou a encarar Joaquim. Estava com olhar decisivo. E ele, cada vez mais acanhado e submisso.
_ Pois bem, primeiramente, eu ficarei com os meninos.
_ Não vai...
_ Quieto! Eu ficarei com os meninos, querendo você ou não. E também, não se preocupe em pagar os caras, das drogas.
_ Como não?
_ Já ouviu falar na Chefe Pirla?
_ Pirla? Mas é claro, os caras falam dela o tempo todo. É a líder do tráfico do sudeste inteiro. Mas espera. Como conhece Pirla?
Joaquim estava imóvel. Pálido, se calara. Passava mil coisas em sua cabeça, mas nada que fizesse sentido.
_ Quando mamãe morreu, eu precisava conseguir dinheiro pra sustentar a casa.
_ Conhece Pirla? Pediu dinheiro à ela?
_ Eu sou a Chefe Pirla.
Joaquim caíra sentado de volta no sofá. Colocara a mão no peito. Começara tossir, o ar faltara. A vista embaçou e já não via mais nada. Não sentia mais, não estava mais ali.
Já eram cinco da manhã quando os meninos acordaram novamente por causa de barulho. Era a ambulância, que chegara por chamado de Priscila para levar o corpo de Joaquim.
Escrito em 23 de maio de 2009; conto.
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