sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Acaso

Já se passara quatro anos, mas ela ainda não esquecera a cena que presenciara naquele apartamento. Desde que ele entrou naquela sala, e o viu naquele ritual. Ainda fluíam em suas lembranças, a cena em que ele corria, corredor adentro, talvez numa tentativa de fuga. Ainda podia ver o cigarro semi-aceso, na mesinha central.
Hoje, qualquer desconhecido que passasse por ela, podia descobrir, a tristeza e a confusão em seus olhos.
Pele jambo, olhos grandes e escuros, cabelos ao vento num corte inconfundível, irradiava o mesmo tom. Personalidade misteriosa. Jeito intrigante. Mas ela apenas precisava pensar. E ali estava, sentada à beira-mar . O sino da igreja próxima, já anunciava vinte horas do dia, quando a Lua começara a iluminar a escuridão que só estava começando.
“Apenas o que eu vi, não podia ser irreal.” –pensava com a mente.
“Simplesmente não podia ser complicado.” –pensava com o coração.
_ Pai.. pai.. Papai. O que isso significa?
Ela precisava entender.
“Dessa noite não passa. Preciso de sua resposta.” Lembrava das palavras do pai, na noite anterior, quando o reencontrou pela primeira vez, desde que ela se fora há quatro anos.
“Dessa noite não passa.” E realmente não passaria. Ela lhe deu sua palavra, de que responderia o que o pai precisava saber. Já tinha seus vinte e sete anos. Não era mais uma garotinha, precisava de uma atitude em um ponto certeiro.
Será que tudo que fizera, agora se refletia no próprio pai?
Priscila desde os 19 anos entrara no mundo das drogas. Não no vício, isso nunca. Abominava essa idéia. Se drogar é descontar em si próprio toda raiva que o mundo inteiro lhe transmite - descrevia. É rebelar e sofrer, culpando-se por todos os problemas à sua volta. Como se a droga te desse um livre arbítrio, quando sozinho não consegue por si só.
Na verdade, era traficante. Esperta e dissimulada como ninguém, crescera tão rápido naquele mundo, que há anos, já era líder de todo um grupo do tráfico.
Entrara nessa vida, após a morte de sua mãe, uma mulher forte e decidida, que sempre lutara sozinha para sustentar a casa. Moravam Priscila, mãe, pai e seus dois irmãos pequenos. A situação sempre fora complicada, já que viviam apenas com o dinheiro do trabalho da mãe. Depois da morte, o pai acomodou-se ainda mais, só que dessa vez com a desculpa de uma depressão. Fora aí que Priscila começou a traficar.
Ela vivia nessa realidade, sabia o quão ruim era para os fracos viciados, como ela os denominava. Só não esperava que veria essa tragédia, dentro de sua própria família, com seu próprio pai.
Desde há quatro anos, quando entrou em casa, e viu seu pai em uma crise, se drogando, quase morrendo, se “matando” com substâncias, que indiretamente, ela mesma havia colocado ali. Ela traficava, bancava, governava. Sustentava o vício de seu próprio pai, e daí a sensação de culpa imperdoável. Com esperança de sustentar e reerguer a família, ela destruíra. E da mesma forma que destruíra, fugira. Assim como o pai fugiu, quando a viu entrando pela sala naquela noite. Fugira também, sumiu de todos, tentando se esconder. Em vão. De si mesma ela jamais poderia se esconder. E essa vergonha era apenas dela, isso ela tinha certeza. Assim como a certeza de que havia fracassado.
Já eram 23 horas e quarenta minutos quando seu celular tocou, acordando-a. Havia adormecido, deitada na areia da praia. Ah, como queria que aquilo tudo fosse um sonho!
Número desconhecido. Atendeu. A voz não era desconhecida.
_ Priscila? Eu prometi que não te ligaria, te deixaria pensar até que o dia amanhecesse, mas eu não agüento mais, minha filha. Por..
_ Não me chame de filha!
_ .. Tudo bem ... Mas.. Por favor.. Diga-me que irá me encontrar.. Por favor, me diga que vai me ouvir, minha..
_ Eu aceito falar com você!
_ Ah!! O jeito de sua mãe.. Sempre cortando a fala dos outros.
_ Você que demora muito pra se expressar, não tenho a vida toda. Ok, Praça da Bandeira, em meia hora, em algum banco da lateral esquerda.
Falou rápido e desligou.
Eram exatamente meia-noite e dez minutos, quando Priscila chegara à praça, extremamente pontual. Vira um pouco mais à frente um senhor, vestido com moletons.
Joaquim segurava o celular nas mãos, apreensivo, olhando para todos os cantos. Ficou imóvel quando viu Priscila se aproximar.
_ Diga logo o que quer. Não tenho muito tempo.
_ Filha, ah, minha filha..
Os olhos de Priscila começaram a se encher de lágrimas, e todo sentimento de culpa voltara. Respirou fundo, colocando para dentro tudo que estava sentindo. Jamais se mostraria fraca, ainda mais a ele. Jamais mostrara seus sentimentos à ninguém, não era agora que ia se desabar em lágrimas, como uma criancinha de cinco anos.
_ Minha filha, como você está linda.. Que saudade de você, me lembra demais sua mãe. Que saudade dela..
Até aí ela se mantinha calada.
_ E seus irmãos também sentem muito sua falta.
_ Eu já disse que não tenho todo meu tempo pra você, mas que droga!
Virou-se de costas, respirou fundo mais uma vez, voltou-se a ele.
_ Não vim aqui pra saber do que sente, dane-se você. Diga logo o que tem à dizer. Tenho muito o que fazer ainda.
_ Priscila! Por que me trata assim? Por quê? Eu sou seu pai, menina!
Ele havia aumentado seu tom de voz. Ela começara à rir.
_ Você acha mesmo que tem alguma moral sobre mim? Nunca me sustentou, nunca nem se quer perguntou sobre minha vida, nunca se interessou em saber em como eu estava. Agora eu entendo pra onde ia o dinheiro das contas de casa, que mamãe deixava contigo pra você pagar, não é? Tudo em drogas, Joaquim, tudo? Mamãe se matava pra pagar todas as contas, pra por comida dentro de casa, pra pagar estudo à mim e aos meninos. E você? Nada. Nada, nunca. E ainda torrava dinheiro da mamãe em drogas! Drogas! Ora mais, Joaquim, e agora quer me lembrar de que é meu pai?
Ele a olhava pasmo.
_ Tudo bem, então serei direto.
_ Assim espero.
_ Preciso de dinheiro.
_ O quê? Me chamou aqui pra pedir dinheiro?
_ Eu preciso, Priscila, eu preciso.
_ Pra quê? Pra torrar em mais drogas? Ora mais, vá trabalhar, Joaquim! Coisa, aliás, que nunca fez na vida! Vou-me embora.
_ Espere! Espere Priscila, por favor. Eu preciso de grana, urgente, não tenho mais onde conseguir. Acha que procuraria você se não fosse realmente importante?
_ Ok. Precisa de dinheiro pra quê?
_ Seus irmãos. Eles vão passar fome essa semana, acabou tudo que tinha em casa, acabou o dinheiro da poupança deles...
_ Mexeu na popança que mamãe deixou pros meninos?
_ Mas é claro Priscila! Como eu ia sustentar aqueles moleques?
_ Achei que fosse um pouquinho melhor.
_ O quê?
_ Você. Achei que pelo menos saberia cuidar bem dos pequenos.
_ Não tenho dinheiro Priscila, você parece que não entende isso!
_ Me dê a guarda deles.
_ Te dar os moleques? Nem pensar.
_ E por que não? Porque sem eles não teria mais motivos pra vir me pedir dinheiro, não é? Ora, mais que traste você é! Cada vez pior!
_ O dinheiro da minha aposentadoria eu estou usando pra pagar os caras. Tem muito dinheiro de drogas que estou devendo, e sabe como é com esses caras, ou paga ou morre!
Os caras.. Os caras que trabalhavam pra ela. Ela era a chefe, ela era a líder. Ela mandava os caras cobrarem e conseguirem a grana dos fracos viciados à qualquer custo. Agora seus irmãos passavam fome, pois o pai não tinha dinheiro pra cuidar-lhes, pois tinha que pagar os caras. Ele tinha que pagar ela mesma! Ela tava fazendo os irmãos passarem fome, diretamente ou indiretamente. Se sentia totalmente culpada. Como tinha deixado as coisas chegarem à esse ponto? Só começou com isso pra ajudar a família, e a
destruiu completamente. Será que um dia ela mesma se perdoaria?
_ Priscila! Priscila, ficou surda agora, menina? Estou falando com você. Vai logo me arranjar a grana ou vai deixar os moleques passando fome?
_ Onde estão os meninos?
_ Em casa.
_ Eu vou buscar-los.
_ Não! Não,não vai.
Priscila saiu andando em direção a seu carro, parado à alguns metros dali.
_ Onde pensa que vai, menina?
_ Entre logo e cale essa maldita boca, mas que droga!
Não agüentava mais. Começou a chorar. Se sentia mais fraca que todos os fracos viciados que ela tanto abominava.
Esperou o pai entrar ao seu lado, e ligou o carro. Partiu, em direção à sua antiga casa. A casa de sua mãe. Como sentia falta dela, seu único porto-seguro, que há oito anos não tinha mais ao seu lado. Sentia um vazio tão grande dentro de si. Seria difícil voltar àquela casa, depois de quatro anos sem dar nem sinal de vida ao pai e aos irmãos. Mas ela o faria, em memória à sua mãe; uma mulher forte. Ela também seria forte.
Respirara fundo mais uma vez, engolindo o choro e qualquer resquício de desespero e tristeza.
Chegara. Estacionara na frente de sua antiga casa. Desceram, ela e seu pai.
Joaquim abrira a porta de casa, e sentou-se no sofá, esperando a decisão de Priscila. Parecia cada vez mais apreensivo, nervoso, com medo. Fraco.
A casa estava um completo lixo. Coisas jogadas, cigarros e garrafas de bebidas espalhados por todo o canto. Roupas dos meninos amassadas, jogadas no sofá. Amontoados de coisas sujas ao lado. Priscila olhava aquilo, incrédula.
_ É nesse beco que os meus irmãos moram?
_ É nesse beco que você abandonou sua família. Eu e os moleques.
_ Você que se dane! Eu quero os meninos, agora, eles vêm comigo!
_ Não, nem pensar, eu não dou os meninos assim de graça pra você não, Priscila!
_ De graça? E quer o quê? Negociar seus próprios filhos? Quer trocar eles por droga também?
_ Cala essa boca menina, os moleques estão dormindo aí do lado. Vai que escutam.
_ Como se eles não soubessem que você é um drogado perdedor!
A porta do quarto ao lado abrira. Bernardo e Pedro saíram correndo ao encontro da irmã, abraçando-a felizes.
_ Pri, você voltou!
Bernardo tinha nove anos. Pedro, oito. Gritavam felizes e festejavam a volta da irmã. Ela era praticamente uma mãe pros meninos. Maria Laura, mãe deles, morrera de câncer quando Pedro tinha apenas meses de vida e Bernardo, tinha acabado de fazer um ano; não tinham referência nenhuma da mãe verdadeira. Sempre fora Priscila que cuidara dos pequenos.
_ Papai, você achou nossa irmã pra gente.
Pedro abraçava o pai, agradecendo-o. Joaquim abraçava o menino, sorrindo maldoso por trás, para Priscila, como quem diria que ele não era tão inútil e indesejado como ela dizia. Sentia isso como um troféu pra tacar na cara da filha.
Já Bernardo era um pouco mais esperto. Percebia melhor como era o pai. Esse sim, era o que mais sofreu com a falta da mãe, e principalmente, de Priscila.
Bernardo se mantivera o tempo todo ao lado da irmã, e agora questionava todo o tempo se ela ficaria com eles.
_ Sim, Bê, eu vou ficar com vocês!
Joaquim olhara surpreso, mas ao mesmo tempo com medo, muito medo do que Priscila faria daqui pra frente.
_ Mas agora vão vocês dois para o quarto e voltem dormir, tudo bem? Amanhã a gente conversa.
_ Mas a gente quer matar a saudade, maninha.
_ Amanhã, amanhã. Agora eu preciso conversar com o papai, ok? Voltem dormir, vão!
Os meninos voltaram, amuados, para o quarto. Fecharam a porta, e Priscila voltou a encarar Joaquim. Estava com olhar decisivo. E ele, cada vez mais acanhado e submisso.
_ Pois bem, primeiramente, eu ficarei com os meninos.
_ Não vai...
_ Quieto! Eu ficarei com os meninos, querendo você ou não. E também, não se preocupe em pagar os caras, das drogas.
_ Como não?
_ Já ouviu falar na Chefe Pirla?
_ Pirla? Mas é claro, os caras falam dela o tempo todo. É a líder do tráfico do sudeste inteiro. Mas espera. Como conhece Pirla?
Joaquim estava imóvel. Pálido, se calara. Passava mil coisas em sua cabeça, mas nada que fizesse sentido.
_ Quando mamãe morreu, eu precisava conseguir dinheiro pra sustentar a casa.
_ Conhece Pirla? Pediu dinheiro à ela?
_ Eu sou a Chefe Pirla.
Joaquim caíra sentado de volta no sofá. Colocara a mão no peito. Começara tossir, o ar faltara. A vista embaçou e já não via mais nada. Não sentia mais, não estava mais ali.
Já eram cinco da manhã quando os meninos acordaram novamente por causa de barulho. Era a ambulância, que chegara por chamado de Priscila para levar o corpo de Joaquim.



Escrito em 23 de maio de 2009; conto.





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