Fazia frio e ventava muito. A Avenida Correia estava agitada. Não de felicitações, muito menos de pessoas alegres. Era agitada no sentido de tumulto. Tinha muitos carros, som de buzina e gritos das pessoas. Acenavam à Deus, levando à Ele como oferta, poluição e xingamentos. Não xingavam Deus; porém era a única forma de palavras audíveis naquele quarteirão. O vento vinha cada vez mais forte, mostrando princípios de um furacão. As pessoas desciam do carro tentando abrir passagem, mas só viam fileiras e mais fileiras de carros. O congestionamento estava insuportável. Bem, pelo menos para a maioria que não sabe olhar pra dentro de si, e para os outros, quando se vê em uma situação incômoda.
Guilherme estava bem no meio do congestionamento. Era assim que se sentia, pelo menos. Olhando pra frente ou pra trás não via final nem começo. Ele tinha treze anos e era de família classe alta. Tinha luxo, mas não tinha amor. Os pais trabalhavam o dia inteiro; era criado por babás e a partir de certa idade passava o dia sozinho em casa. Apenas ele e sua bombinha respiratória. Tinha asma, síndrome do pânico e claustrofobia. Medo de escuro, de altura, de monstros. Solidão. Sempre foi uma criança autista. Porém era bastante inteligente, só precisava desenvolver alguns lados, como autonomia, liberdade, coragem, crítica. E outros mais. Voltando ao momento, ele estava no banco de trás. Sozinho. O pai e um amigo do mesmo, estavam do lado de fora, tentando contatos ou sabe-se lá o quê.
Ele tremia de frio e desespero. Tentou sair do carro, as portas de trás estavam trancadas. Seu pânico aumentou, junto com a os batimentos cardíacos. Sua vista estava embaçada e não conseguia gritar por ajuda. Sua bombinha estava no porta-luvas. Não iria alcançá-la, mal conseguia se mexer ou respirar.
Do outro lado da pista, onde os carros tinham sentido de destino contrário ao que Guilherme estava, tinha uma garotinha de nove anos. O nome dela era Bianca. Ele não sabia disso. Ela também não sabia qual era o problema dele. Mas conseguiu ver que sua mente não estava tranqüila.
Fazia alguns minutos que ela já o observava. Sem nenhuma palavra, saiu do carro do padrinho em que estava, atravessou as pistas por meio do trânsito parado e entrou no carro de Guilherme, no banco da frente do passageiro, e se virou pra trás.
_ Do que você precisa?
Sua voz era suave. Seu rosto fino, meigo e seguro. Talvez seja isso que fez Guilherme parar de buscar ar e chiar o peito. De forma impressionante, ele respirou normalmente. Ou talvez não respirou, não precisou, não percebeu. O ar fluía, parecendo que vinha da pequena menina.
Eles se encararam por um breve momento, o que foi suficiente.
_ Me fale no que eu posso te ajudar.
Ele não conseguia responder. Quem era aquela garotinha que se introduziu na sua vida sem pedir licença? Ela era de verdade ou era uma fantasia sua? Quem seria o ser humano que se preocuparia com o outro em pleno começo de um furacão? Como poderia, ela notar a sua presença? Ninguém nunca demonstrou preocupação em seus ataques de pânico. Chamavam de frescura e pronto, bastava.
_ Quem é você? - foi o máximo que ele conseguiu pronunciar. Ainda assim com tom baixo e inseguro. Poderiam achar que ele estava maluco falando com uma menina que ele não conhecia, ou que nem existia. Ele não confiava nem em si mesmo.
_ Bianca. Você está melhor? Ainda está pálido. É o tumulto que te deixa assim, não é?
_ É. Me sinto preso e sozinho.
_ Você nunca estará sozinho se estiver com você mesmo. Você é seu amigo?
_ Bem, não sei. O que eu faço pra saber?
_ Você já conversou consigo mesmo?
_ Não, nunca. As pessoas te chamam de louca?
_ Não. Mas eu não faço na frente dos adultos, eles não entendem.
_ Os adultos são chatos.
_ Eles são crianças mortas.
Guilherme se calou. Tentava entender o que Bianca estava dizendo. O que essa garotinha queria, afinal?
_ Qual é o seu nome?
_ Guilherme.
_ Você está pensando?
_ Estava.
_ Você estava conversando consigo mesmo.
_ Então eu sou meu amigo?
_ Depende. Só vai ser meu amigo se responder pra si mesmo as suas próprias perguntas. Entende?
_ Não.
Ela respirou fundo, abriu um grande sorriso e o chamou pra brincar.
_ Aqui? Brincar do quê?
_ Do que você quiser.
_ Não posso, meu pai vai brigar comigo.
_ Seu pai é uma criança morta?
Agora ele havia entendido o que ela dizia. Estava começando a se soltar, conversar e entender melhor os pensamentos da menina. E ele nem percebia a mudança.
_ É sim.
Ela pulou pro banco de trás e sentou-se ao seu lado. Ele a olhava assustado, não entendia o que estava acontecendo.
Ela pegou do bolso de sua calça, um chiclete. Aparentava ser de morango, mas cheirava mal. E além disso, estava amarrotado. Ela não ofereceu à ele, mas mastigava com prazer. Olhava pro lado, pela janela, vendo o alvoroço. Não fez mais nenhuma pergunta intrigante. Deixou que ele se acalmasse por si só.
Mas ele ainda não era tão bom nisso. Se sentiu sozinho, mesmo entre aquelas tantas pessoas. Se sentiu desprezado, esquecido. Mesmo a tendo ali ao seu lado, parecia que nada era suficiente, ele precisava de muito mais atenção.
Sua respiração falhou de novo, e agora muito mais. Sua visão escureceu, o carro parecia espremê-lo e vozes gritavam em seu ouvido.
_ Me .. Ajuda..respirar!
A menina sorria de forma serena.
_ O que eu devo fazer?
Mas seu tom de voz era mais preocupante.
_ Pega..no porta-luvas, meu.. Minha bombinha!
_ Não tem ninguém aqui pra cuidar de você, não? Cadê sua família? Cadê os adultos chatos?
Ela retrucava enquanto pulava os bancos novamente. Procurava com rapidez a bombinha. Parecia muito revoltada.
_ Aqui está!
Ela estendeu com rapidez. Ele puxou de sua mão, com brutalidade. Colocou o aparelho na boca. Seus olhos escorriam lágrimas e seu rosto estava vermelho. Sentia que ia desmaiar à qualquer momento. Fechou os olhos e puxou o ar. Umas cinco vezes. Mas pareceu ser mais. Estava um pouco melhor. Abriu os olhos e foi agradecer à sua mais nova amiga. Mas ela não estava mais lá.
Olhou pra fora e só viu o pai e o amigo voltando ao carro. Tentavam procurar contatos ou sabe-se lá o quê. As pessoas xingavam e gritavam. Tinha um princípio de furacão. Na Avenida Correia, Deus recebia poluição. Fazia frio e ventava muito.
Escrito em 12 de julho de 2009; conto.
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
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